sexta-feira, 7 de março de 2014

Você acredita em Deus? "Agnóstico" não é resposta

Não faz muitos anos que uma parcela significativa de pessoas que conheço começaram a responder às perguntas como “Você acredita em Deus?” da seguinte maneira: "não tenho religião, sou agnóstico". Com isso, se queria dizer duas coisas: ou que acredito em Deus mas não sigo uma doutrina, ou que sou incapaz de dizer se Deus existe ou não. Essas duas formas de se utilizar do termo agnóstico são mais ou menos corretas. Digo isso porque elas podem ser  de uma pessoa cuja posição é o agnosticismo, todavia, a primeira não é uma característica necessária do agnóstico, e a segunda nada diz sobre a posição teológica do questionado. Explico melhor adiante.

Em busca de uma exposição a respeito da relação entre crença e ateísmo (O ateísmo é uma crença?), encontrei uma série de bons trabalhos, incluindo um ótimo texto, bem argumentado, que me mostrou não só que o ateísmo é antes uma não-crença que uma crença, como também circunscreve uma definição de ateísmo relacionado à crença. Farei um resumo aqui da maneira mais simples possível.

Desde Platão, a noção de conhecimento ficou conhecida como uma “crença verdadeira e justificada”. Isso significa que para dizermos que acreditamos numa coisa, basta tendermos a aceitar aquela coisa como verdade; porém, para dizer que sabemos algo, ou seja, que conhecemos, essa nossa crença deve ser justificada. Com o advento da lógica aristotélica, foi possível relacionar as crenças não com coisas, mas sim com proposições (pensamento expresso na forma declarativa, afirmações na forma de sujeito e predicado).

Sendo assim, se eu digo “A chuva é fria”, temos aí uma proposição, algo que declara antes um pensamento meu que a realidade em si da chuva. A crença é “estado mental disposicional, que tem como conteúdo uma proposição, verdadeira ou falsa”. Ou seja, além de conter uma proposição (uma expressão declarativa de um pensamento) a crença é disposicional (uma disposição a aceitar como verdade uma proposição).

Nesse contexto, o ateísmo, no fim das contas, se mostra antes uma rejeição da proposição “Deus existe”, do que a disposição a aceitar como verdade (crença) a proposição “Deus não existe”. Em outras palavras, o que define o ateísmo é simplesmente a não crença em divindades, sendo que isso não necessariamente implica na crença na não existência de divindades. Isso é um tanto complicado de se entender a principio. A divisão entre ateus fracos e fortes, criada e utilizada por alguns autores ateístas, nos ajuda a esclarecer a questão.

O ateu forte seria aquele que além de rejeitar a proposição “Deus existe”, aceita a proposição “Deus não existe”. Ou seja, esse é um ateu que crê na não existência de Deus, justificando tal crença através da falta de evidências, por exemplo. Para ele, a ausência de evidências é a evidência da ausência. O ateu forte parece ser minoria entre os ateus. Para ser ateu, basta ser um ateu fraco.

O ateu fraco é aquele que simplesmente não acredita na existência de Deus, tem uma não-crença e rejeita a proposição “Deus existe”; porém, se colocarmos perante ele a proposição “Deus não existe”, ele também irá rejeitá-la. Alguns ficarão confusos aqui. Como ele pode rejeitar que Deus existe e Deus não existe? Rejeitar uma não implica em aceitar a outra? Não. Isso porque, novamente, a crença se relaciona com proposições e não com coisas.

Se alguém diz para mim “Seu primo é gordo” e eu rejeito, e esse mesmo alguém diz “Então, seu primo é magro”, eu posso rejeitar também porque, afinal de contas, eu posso não conhecer meu primo. Isso não significa que meu primo não existe. Ele pode existir e ser gordo, mas como não o conheço, nada posso afirmar de conhecimento sobre ele.

Para ser ateu, então, basta rejeitar a proposição “Deus existe” (pode-se falar também em rejeitar a existência divindades). Para além disso, caso alguém aceite a proposição “Deus não existe”, esse será um ateu forte, mas caso rejeite qualquer outra proposição sobre Deus, será um ateu fraco. Portanto, o ateu fraco é aquele que nada afirma sobre Deus, enquanto o ateu forte crê na não existência de Deus.

Mas, o ateu fraco não é o agnóstico? Não necessariamente. O que difere aqui é o referencial da posição. Teísta e ateísta são posições teológicas, enquanto o agnosticismo é uma posição epistemológica (do conhecimento). Ou seja, teologicamente falando, ou você é ateu ou não é. Não existe um meio termo aí chamado “agnóstico”.

O agnóstico, do ponto de vista do conhecimento, crê que a razão é incapaz de conhecer as divindades. Isso torna a resposta “agnóstico” insuficiente para a pergunta “Você acredita em Deus?”, pois o agnóstico pode tanto ser teísta, como um ateu fraco. Um agnóstico crê que nossa razão é incapaz de conhecer Deus, por isso, ele pode tanto encontrar motivos para crer em Deus pela fé (teísta), como pode, crendo que nossa razão não pode conhecer Deus, nada afirmar sobre ele, rejeitando qualquer proposição a respeito de Deus e achando a fé insuficiente para sustentar sua crença (ateu fraco).

Trocando em miúdos, eu diria que se você não está nem aí para Deus e sua existência, como não está nem aí para o Papai Noel, sem abrir mão de que se um dia ele aparecer você o aceite, você é ateu. Ser agnóstico aqui apenas significa que essa ideia de Deus fica em suspeita. Pode até ser que ele exista, mas pode ser também que não seja possível conhecê-lo e, portanto, como creio no que posso conhecer, rejeito a proposição "Deus existe". Porém, pode-se ser um agnóstico que crê em Deus: isso significa que eu dispensaria a Razão como forma de conhecer Deus, mas Deus poderia ser conhecido pela Fé, como Pascal diria, por exemplo.


PS: Há quem diga que o conhecimento pela Fé é gnosticismo, sendo o agnosticismo caracterizado pela incerteza, ainda havendo a fé. Porém, defendo aqui que o agnosticismo é uma posição suspensão do conhecimento pela Razão.

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